A dança, que começou, em algumas igrejas, como uma coreografia simples,
executada ao som de hinos melódicos, ficou mais complexa, até evoluir para
apresentações de balé e shows de hip-hop. Hoje, não há mais limites! Já temos o
erotizante funk dentro de algumas igrejas, além coreografias quase idênticas
(sem exageros) às performances dos dançarinos da Madonna, da Britney Spears e
da Beyoncé.
Seria possível um retrocesso? Creio que não, pois os corações estão
endurecidos. Mesmo assim, não posso me omitir, deixando de repisar (e reprisar)
esse assunto nada simpático, que muitos preferem evitar para não irritar a
maioria. Isso mesmo: a maioria. Afinal, se pedirmos a dez cristãos a sua
opinião sobre a dança no culto, pelo menos metade se posicionará a favor dela.
E a proporção aumentará mais ainda se os dez cristãos forem jovens e
adolescentes.
Quando a dança passou a fazer parte da liturgia evangélica? Lembro-me de
que, há pouco tempo, não víamos cultos com dança na igreja brasileira. No meu
tempo de juventude, um ou outro falava em “dança no Espírito”, mas era um
assunto muito controvertido. E a liderança, de maneira geral, não aceitava a
dança como parte integrante do culto a Deus. De uns tempos para cá, alguns
“revolucionários” descobriram a “América”! Aliás, dois destes “descobridores”,
por ironia, estão presos na América do Norte por evasão de divisas.
É triste ver como as superfluidades, as efemeridades, estão ocupando
espaço no culto coletivo a Deus. Há algum tempo, os jovens passavam a noite em
vigília, orando, estudando a Palavra. Assim acontecia nas décadas de 1980 e
1990. Hoje, os jovens vão para a “balada”, graças ao incentivo de líderes
inescrupulosos, sem compromisso com a Palavra de Deus, movidos por outros
interesses pessoais. Tais “revolucionários” dizem de boca cheia que são
contrários ao legalismo, mas não se aperceberam de que são mundanos e
porta-vozes do mundanismo.
O site YouTube contém vídeos e mais vídeos que mostram o que tem
ocorrido em igrejas evangélicas lideradas por “revolucionários”. Excesso de
louvor (se é que podemos chamar as cantorias intermináveis e as danças de
louvor!), bem como números teatrais demorados, que para muitos desses “descobridores”
têm o mesmo efeito da Palavra… Que engano! Nada substitui a exposição da sã
doutrina! Caso contrário, o Senhor Jesus não teria dedicado boa parte de seu
ministério à explanação das Escrituras. E Ele é o nosso modelo (I João 2:6; Mateus 11:29), e não
pastores de mega-igrejas, os quais inovam a cada dia, haja vista sua motivação
principal ser a arrecadação de dinheiro (II Coríntios 2:17; I Timóteo 6:9).
Reafirmo, com inteira convicção (mesmo que eu fique só), que não há base
bíblica nenhuma para se introduzir danças no culto, tampouco para chamá-las de
ministério, como muitas igrejas estão fazendo. Os “revolucionários” citam Davi
como um praticante da dança no culto a Deus. Mas a própria Palavra do Senhor
depõe contra tal subterfúgio. Quem estuda a Bíblia sem preconceito, sabe que o
próprio Davi, ao organizar o culto na antiga aliança, juntamente com Asafe, não
fez nenhuma menção à dança. Pelo contrário, ele estabeleceu apenas cantores e
músicos (I Crônicas 25).
Ora, se Deus gosta tanto de dança, por que Davi, um homem segundo o
coração de Deus – que inclusive dançou do lado de fora do templo – não a
incluiu na liturgia? Se ele e Asafe tivessem estabelecido dançarinos e
coreógrafos, tudo ficaria claro. Não haveria nenhum obstáculo às danças na casa
de Deus. Mas quem examina as Escrituras à luz dos contextos histórico, cultural
e literário sabe que a dança de Davi foi um ato único, pessoal, fora do Templo,
isolado, e não litúrgico, exemplar ou inaugural.
Não só a dança de Davi, mas a de Miriã, também muito citada pelos
“revolucionários”, foram atos à parte, fora do culto, patrióticos, pelos quais
eles extravasaram a sua alegria. O Senhor não os condenou por suas danças, mas
elas também não passaram a fazer, a partir de então, parte do culto coletivo a
Deus. E isso explica o fato de não haver no Novo Testamento nenhum incentivo à
dança no culto coletivo, apesar de muitos agirem como se houvesse apoio irrestrito
a ela nas páginas sagradas.
Os “revolucionários” não querem saber de Bíblia. Apascentam-se a si
mesmos e desviam o povo da verdade. Se eles pudessem, impediriam o povo de
estudar as Escrituras. Como não podem fazer isso, a sua estratégia tem sido induzir
as pessoas ao erro. Empregam, por exemplo, textos isolados dos Salmos como
incentivo a toda prática mundana dentro das igrejas. Mas as duas passagens
preferidas deles, os Salmos 149 e 150, não abonam a
dança no culto.
Discute-se qual é a significação exata do termo original contido nos
mencionados Salmos, o qual pode designar “dança”, “flauta” ou “shofar”. No entanto,
deixando essa divergência de lado, digamos que, em Salmos 149:3 e 150:4, esteja
escrito mesmo, à luz do hebraico: “Louvai ao SENHOR com dança”. Mesmo assim, os
tais versículos não avalizam a dança no culto cristão. Lembremo-nos de que a
mensagem da Bíblia se dirige a três povos: judeus, gentios e cristãos (I
Coríntios 10:32). E nem sempre um texto pode ser considerado “universal”, isto
é, aplicável aos três povos.
É interessante como os “revolucionários” interpretam a Bíblia segundo os
seus interesses. Se fôssemos aplicar a nós, hoje, o que diz o Salmo 149, na
íntegra, teríamos de louvar a Deus com danças e uma espada na mão
(literalmente), tomando vingança (literalmente) das nações! Alguém dirá: “Que
exagero. A espada e a guerra devem ser aplicadas de maneira figurada”. Então,
por que a dança deve ser aplicada por nós de modo literal?
Os defensores da dança também se valem de I Coríntios 6:20.
Mas veja o que diz a Palavra de Deus, em seu contexto: “Fugi da prostituição.
Todo o pecado que o homem comete é fora do corpo; mas o que se prostitui peca
contra o seu próprio corpo. Ou não sabeis que o nosso corpo é o templo do
Espírito Santo, que habita em vós, proveniente de Deus, e que não sois de vós
mesmos? Porque fostes comprados por bom preço; glorificai, pois, a Deus no
vosso corpo e no vosso espírito, os quais pertencem a Deus” (versos 18-20).
O que é glorificar a Deus no corpo? Significa não pecar contra Deus por
meio do corpo! Somos o templo do Espírito, pertencemos ao Senhor, e nosso corpo
nunca deve ser profanado por qualquer impureza ou mal, proveniente da
imoralidade, nos pensamentos, desejos, atos, imagens, literaturas (II Timóteo 2:22; I João 2:14-17; Salmos 101:3). O
texto em apreço, por conseguinte, não é uma “carta branca” para dançar ou
empregar qualquer expressão corporal para glorificar a Deus.
Sei que muitos seguidores dessa “onda” me veem como um
“estragaprazeres”. No entanto, reitero que não há base bíblica para o que
chamam hoje de “adoração através da dança” ou “adoração extravagante”. A
despeito de ainda haver igrejas mais moderadas e reverentes, a dança nunca foi
uma forma de louvor a Deus, e sim uma maneira de se exteriorizar alegria ou
agradar uma plateia. Lembra-se da filha de Herodias? Ela dançou para o público
e agradou Herodes.
Segundo a Bíblia, Deus é exaltado por meio de cânticos, e não mediante
danças (Salmos 57:7). O
cântico, ao contrário da dança, é atemporal, não restrito a povos e culturas (Colossenses 3:16; Efésios 5:19). Mas
os “revolucionários” pensam que o evangelho se submete à cultura dos povos. Que
engano! Pensam eles, erroneamente, que o africano tem de tocar tambores na casa
de Deus e que o brasileiro tem de sambar diante do Senhor…
É o evangelho de Cristo que influencia e muda hábitos culturais, e não o
inverso. “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas
velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (II Coríntios 5:17).
Fundamentalmente, não há nenhuma passagem – repito – nas páginas
veterotestamentárias e também do Novo Testamento que abone, verdadeiramente, a
introdução da dança no culto.
Mas, por que há tanta dificuldade em se entender isso? Por que a maioria
prefere que haja danças no culto? Na verdade, os “revolucionários” priorizam a
satisfação momentânea das pessoas, e não a vontade Deus. Ah, se nos
conscientizássemos de que o culto é para Deus, e não para satisfazer pessoas!
Como seria maravilhoso se nos convencêssemos de que a maneira de Deus falar, no
culto, não é por meio de danças, coreografias, peças teatrais, e sim pela sua
Palavra!
Que Deus abra os olhos desses líderes e ministros de louvor
“revolucionários”, os quais se deixam levar pelo secularismo e pelos clamores
do povo. Que eles reflitam melhor à luz da Palavra e cumpram a vontade do
Senhor (Salmos 119:105; Mateus 7:21-23). E
que façamos valer a oração-modelo deixada pelo Senhor Jesus: “Seja feita a tua
vontade, tanto na terra como no céu” (Mateus 6:10).
Sei que duro é esse “discurso”… Quantos podem dizer “amém?”
Nenhum comentário:
Postar um comentário